16/06/2013

O fole roncou


Matéria originalmente publicada no blog "Amálgama"


A história e as histórias da música nordestina

Livro lançado recentemente soma elementos importantíssimos para a afirmação da memória da música do Nordeste.
“O fole roncou! – Uma história do forró”, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues
Tenho vergonha de dizer que o tema deste livro foi em grande parte novo para mim, afinal sou professor de História da Música Brasileira, e essa disciplina vem sendo marcada por uma inominável quantidade de exclusões que se praticam em seu nome. Existe uma tradição consolidada como mainstream em torno do samba carioca dos anos 1920-40, retomada a partir da miríade de crônicas jornalísticas e histórias da música popular brasileira que vão surgindo a partir da década de 1950, e que servem como ponto de apoio para a retomada do que Caetano chama de “linha evolutiva”: a partir da Bossa Nova, toda a modernização que resulta na sigla MPB se faz com base no samba tradicional/tradicionalizado de décadas anteriores. Esse processo todo está mais do que bem descrito/analisado no texto clássico de Napolitano e Wasserman (pdf aqui).
Ou seja, para chegar-se ao consenso de que Música Popular Brasileira é sinônimo de tudo o que veio da tradição do samba, procedeu-se uma violência simbólica excludente, deixando de fora, por exemplo, a música caipira/sertaneja, o rock brasileiro, e também a música nordestina. Por tudo isso, escrever uma história da música nordestina é uma ação política fundamental, e o livroO fole roncou! – Uma história do forró, de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, traz uma grande contribuição. Afinal, para que a música nordestina receba o lugar que merece na nossa memória cultural e na História da Música Brasileira, é necessário fazer o que já vem sendo feito com o samba há uns oitenta anos: escrever sobre ela.
Só por isso, já é importante ler o livro lançado recentemente pela Zahar. Mas isso também não exime os autores das responsabilidades sobre os problemas da edição. Vou então dividir o livro em duas abordagens: primeiro falo dos defeitos, para terminar falando das qualidades.
O grande problema do livro é o mesmo de vários outros de mesmo teor. Por exemplo, tem uma história do rock que resenhei aqui no Amálgama tempos atrás com problemas parecidos. Sendo jornalistas, os autores escrevem o livro num formato de reportagem infinita, como se estivessem escrevendo para um jornal, só que sem aquelas irritantes limitações de espaço. Faltou aos autores a necessária formação em música e em história para conseguir dar a abordagem merecida para um assunto com essa importância. (Mas como o pessoal que tem a tal formação necessária não está trabalhando nisso, que bom que alguém vem cobrir as indesculpáveis lacunas.)
Termino de ler o livro e continuo sem saber quase nada sobre a música nordestina. Sei muito sobre o anedotário de vários artistas importantes do gênero (na verdade, o forró como gênero nem mesmo se afirma no livro, ficando apenas como um gancho no título). Sei dos problemas conjugais de cada um, que tipo de dor sentiram quando morreram, como se conheceram os vários parceiros importantes de sua música. Não sei quase nada da possibilidade de confirmar as informações do livro, pois os autores têm o péssimo hábito de não indicar de onde vêm as informações. É claro que a maioria do público não vai querer interromper a leitura para ficar conferindo essas coisas, mas notas de fim de capítulo resolveriam muito bem o problema – vão a elas apenas os leitores especializados, que querem confirmar as informações. Também não é completa a bibliografia que vem ao final, pois várias obras mencionadas ao longo do livro não aparecem lá.
Tem muita coisa que vem de acervos de jornais, e como estes não são corretamente indicados, muitos dados ficam como informação perdida. Não daria nenhum trabalho indicar nome do jornal e data da matéria para quem precisasse ir atrás de algum ponto. Também tem muita informação que claramente saiu de depoimentos. Alguns eles indicam serem os gravados pelo MIS-RJ, e isso dá para investigar; mas acredito que eles tomaram muito depoimento de gente importante próxima aos artistas citados, o que acabamos não tendo certeza. Esse tipo de informação acurada daria mais valor ao livro. A não explicitação das fontes de pesquisa joga tudo numa imensa dúvida, que diminui demais o valor do trabalho. Isso fica ainda mais prejudicado quando os autores partem do pressuposto de que tudo precisa ser explicado, desde os detalhes da infância dos artistas até a história das cidades de onde eles se originaram. Obviamente, boa parte desse tipo de informação está envolta numa nuvem de mistificação, e os autores têm uma boa fé excessiva quanto ao que apuraram de fontes incertas.
Tirando esses problemas, o livro assoma com grandes qualidades. Como eu já disse no início, a música nordestina é solenemente ignorada nos livros de História da Música Brasileira. O compromisso de certos autores com algum tipo de “bom gosto” duvidoso os leva às exclusões inaceitáveis. São o mesmo tipo de gente que tinha o apelido “pau de arara” ou “paraíbas” para os migrantes que vieram fazer uma vida melhor no Sudeste (Rio e São Paulo) e acabaram trazendo uma imensa tradição musical local para dentro do mercado fonográfico e para tudo o que se concebe como “música brasileira”. Nada é mais brasileiro do que a música nordestina, afinal, a colonização começou por lá, e o sertão é ponto onde as tradições mais antigas estão bem sedimentadas e arraigadas. Quando isso se encontra com as violentas transformações modernizadoras de meados dos século XX, surge essa música pujante.
O livro segue a trilha de artistas pouco estudados, começando com Luiz Gonzaga, seguindo por Marinês e Jackson do Pandeiro. Tudo já na década de 1950, quando o Baião se consolida como gênero fonográfico. A obra segue a trilha do “esquecimento” desses artistas frente às novidades da indústria fonográfica dos anos 1960, e pega o ponto de recuperação da velha guarda a partir de novas gerações que se inseriram na MPB, como Fagner ou Elba Ramalho – o primeiro ligando-se profundamente a Gonzagão, e a última a Marinês.
Para mim, as partes mais interessantes do livro são as descrições dos processos de produção de Abdias nas gravadoras do Rio de Janeiro e o surgimento do forró moderno nas mãos de Emanuel Gurgel, com sua banda Mastruz com Leite e sua gravadora Som Zoom na Fortaleza dos anos 1990. Também foi muito útil descobrir, entre as poucas fontes de pesquisa corretamente indicadas, um livro que parece trazer a abordagem que estou procurando: Forró no asfalto (2003) é mais mais acadêmico e mais fundamentado; e a dissertação Com respeito aos 8 baixos (pdf), que me parece trazer uma abordagem musicológica bem na linha do que os departamentos de música deveriam estar correndo fazer.
Então fica assim: é urgente ter mais gente estudando o assunto, e o blog de Leonardo Rugero, que escreveu a dissertação mencionada acima pode ser um bom ponto de partida, cheio de links para lugares onde se acham mais informações, gravações, vídeos e tal. O livro O fole roncou! vai ser uma leitura importante, mas quem quiser estudar o assunto não vai poder ficar só com isso.
::: O fole roncou! – Uma história do forró :::

15/06/2013

Heleno dos Oito Baixos no São João


Publicado em 12/06/2013 21:24 por Henrique França
A primeira atração a subir no palco do maior e melhor São João do mundo foi o sanfoneiro e compositor pernambucano Heleno dos oito baixos. Com seu fole de oito baixos o artista esquentou a multidão que aguardava ansiosa pelo o arrasta-pé do dia dos namorados. Nem mesmo os 20 graus de temperatura desanimou a galera que marcou presença no pátio “ Luiz Lua Gonzaga” e se jogou no forró.
DSC_0016Heleno dos oito baixos no palco do maior e melhor São João do mundo (Foto: Anderson Stevens )
DSC_0010Heleno dos oito baixos (Foto: Anderson Stevens )
DSC_0007(Foto: Anderson Stevens )
DSC_0022Heleno dos oito baixos esquentando a galera no São João de Caruaru (Foto: Anderson Stevens )

28/05/2013



segunda-feira, 27 de maio de 2013

Encontro de Sanfoneiros movimentou o SESC Teresópolis no fim de semana


Amelinha foi uma das atrações do Encontro de Sanfoneiros (Fotos: Jeferson Hermida)


Atração de destaque da programação cultural do SESC Teresópolis, o 8º Encontro de Sanfoneiros reuniu grandes nomes da sanfona entre quinta-feira, 23, e domingo, 26 de maio. Sucesso de público e com programação diversificada, o evento contou com oficina de acordeão, lançamento do filme ‘Com respeito aos oito baixos’, de Leonardo Rugero, e do livro ‘Tem sanfona no choro’, de Marcelo Caldi, foram algumas das atrações dos quatro dias do evento.

Destaque para a cantora cearense Amelinha, que abriu o encontro com o show ‘Janelas do Brasil’, nome do seu mais recente DVD. Com 40 anos dedicados à música, Amelinha atingiu o auge da fama no início dos anos 80 com a canção ‘Foi Deus que fez você’, destaque no Festival MPB 80, da Rede Globo.

Os acordeonistas de Teresópolis Cândido Neto – idealizador e produtor do evento – e Alex Wey, que são professores na rede municipal de ensino, foram os primeiros a se apresentar no Encontro. Os veteranos Seu Timbira e Zé Lopes também subiram ao palco. Os dois são freqüentadores assíduos do Encontro de Cultura de Raiz, lançado em abril de 2009 pela Secretaria Municipal de Cultura com o objetivo de resgatar e valorizar artistas da cultura popular.

Também mostraram seu talento os acordeonistas André Gandra, Rafael Meninão, Seu Edson do Acordeão e Batista do Forró.



A Gazeta Fluminense: Encontro de Sanfoneiros movimentou o SESC Teresópo...

A Gazeta Fluminense: Encontro de Sanfoneiros movimentou o SESC Teresópo...: Amelinha foi uma das atrações do Encontro de Sanfoneiros (Fotos: Jeferson Hermida) Atração de destaque da programação cultural do ...

26/05/2013

Com Respeito aos oito baixos

Prezados amigos:

Finalmente está saindo do forno o filme "Com Respeito aos Oito Baixos".
Este trabalho foi contemplado com o Prêmio Funarte Centenário de Luiz Gonzaga 2012.
Filmado nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio de Janeiro, o filme traz à luz algumas questões importantes sobre a trajetória do fole de oito baixos na Região Nordeste.
Em breve, as cópias estarão prontas para distribuição e venda.
Aos amigos que queiram mais informações sobre este trabalho, podem contactar-me pelo e-mail: leorugero@gmail.com

Abaixo, a ficha técnica e a sinopse do filme!



COM RESPEITO AOS 8 BAIXOS

Um filme de Léo Rugero
Direção geral: Léo Rugero
Direção de fotografia: Débora 70 e Marcílio Costa
Montagem: Débora 70, Júlia Sarraf e Léo Rugero
Câmera: Débora 70 e Marcilio Costa
Assistente de câmera e iluminação: André Fontes
Motorista: Silvério Candido
Produção executiva: Mila Schiavo
Finalização: Marcílio Costa


Com:  Joquinha Gonzaga, Mestre Pedro,  Vicente Telles, Anselmo Alves, Enock Lima, Lêda Dias, Nego do Mestre, Zé Calixto, Geraldo Correia, Luizinho Calixto, Antonio da Mutuca, Pedro Manú, Vinicius Antonio de Souza, João Cordeiro, Expedito Ferrugem, Aline Justino, Valdir Santos, Ivison Santos Silva, Orquestra Sanfônica de Oito Baixos de Santa Cruz do Capibaribe, Cirinéia Amaral, Thiago Calisto, João Calixto, Bastinho Calixto e José Alberto Salgado.

SINOPSE: Inspirado em dissertação de mestrado homônima, o filme “Com Respeito aos 8 baixos” refaz o percurso do músico e pesquisador Leonardo Rugero Peres (Léo Rugero) em sua pesquisa etnográfica. Filmado em setembro de 2012 nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio de Janeiro, a narrativa  se estrutura sobre breves capítulos que enfocam a influência da sanfona de oito baixos como instrumento solista no contexto dos bailes nordestinos, o aprendizado tradicional do instrumento, a mudança do aprendizado entre os jovens instrumentistas, a circulação dos repertórios tradicionais e o deslocamento de sanfoneiros para o Sudeste em função do êxito de Luiz Gonzaga no contexto fonográfico e radiofônico .

Duração: 40:55 (media metragem)



Escola de Sanfona de oito baixos em Campina Grande


Escola de sanfona

Campina Grande deve ganhar uma escola de sanfona de oito baixos no mês de junho. As aulas serão executadas em cursos livres de extensão, vinculados à Pró-Reitoria de Arte e Cultura da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Aulas vão acontecer na antiga Faculdade de Administração, localizada na Rua Getúlio Vargas, no Centro de Campina Grande.
O anúncio foi feito pelo reitor da UEPB, Rangel Junior, na entrega do 'Troféu Gonzagão' na Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEP), na última terça-feira à noite. Para o reitor Rangel Junior, implantar a escola de sanfona de oito baixos representa mais uma grande contribuição da UEPB para a valorização da cultura nordestina.
"A instituição, que já conta com o Museu Assis Chateaubriand (MAC) e vai entregar ao público paraibano, no próximo mês, mais um grande equipamento cultural, o Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), conhecido como Museu dos Três Pandeiros, reforça seu trabalho, feito em parceria com o Governo do Estado, com o compromisso de preservar as riquezas locais e fazer com que os valores sociais e culturais não se percam ao longo do tempo", frisou.
O sanfoneiro Luizinho Calixto estará à frente desta iniciativa e é o responsável pela elaboração de toda a proposta pedagógica do curso que vai beneficiar toda a população.

16/05/2013

Abdias, Zé Calixto e Luizinho Calixto



Já imaginaram Zé Calixto, Abdias e Luizinho Calixto tocando juntos? Isso aconteceu, algum tempo atrás, no programa "Som Brasil" de Rolando Boldrin, na década de 1980. Um pequeno trecho de "Botão variado" de Bau dos oito baixos e Ivan Bulhões.

Did you imagine Zé Calixto, Abdias e Luizinho Calixto playing together? This happened, sometime ago, in the legendary TV program called "SOM BRASIL". Just a little  of "Botão Variado" (Bau dos oito baixos, Ivan Bulhões). Enjoy it!

02/04/2013

Edilberto Bergamo

Recentemente, fui contactado pelo gaiteiro Edilberto Bergamo. Exímio gaiteiro, pude conhecer o trabalho deste músico em 2010, através de um técnico de som gaúcho. Bergamo confessou ter desenvolvido o interesse pela afinação nordestina, e isso foi o mote de nossa conversa. Recomendei-lhe que pudesse ler meu artigo "A sanfona de oito baixos e a música instrumental". Bergamo não apenas leu o texto, como escreveu uma nota elogiosa no facebook que a seguir transcrevo: "Já faz tempo que venho recolhendo informaçoes sobre a gaita de botao principalmente na musica gaucha. E hoje recebi um trabalho de qualidade chamado A SANFONA DE OITO BAIXOS, muito bem escrito de facil entendimento falando principalmente da gaita de botão na musica Nordestina mas lembrando dos gaúchos. Muito obrigado Leo Rugero, que lindo trabalho quando eu tiver o material pronto sobre a gaita gaucha gostaria muito do teu depoimento. E como diria o cantor e gaiteiro Pirisca Grecco A GAITA É A RAINHA DA FESTA! Nos temos o encargo de manter este instrumento VIVO."Então respondi a Bergamo com os segintes dizeres: "Prezado Edilberto Bérgamo, estas elogiosas palavras de incentivo se revestem de ainda maior valor simbólico, quando proferidas por um músico que não apenas representa a tradição da gaita-ponto, bem como é um de seus maiores representantes. Quando publiquei este primeiro esboço que é o trabalho "A sanfona de oito baixos na música instrumental" em 2008, uma das principais motivações que me conduziram a este verdadeiro mergulho na gaita de botão foi justamente a escassez de textos sobre a prática deste instrumento no Brasil. Passado algum tempo, sou cada vez mais grato ao acordeon diatônico, que entre nós veio a ser denominado de fole, sanfona, gaita ou pé-de-bode, pois, através dele, tenho recebido muito, não apenas musicalmente mas também humanamente, vindo aos poucos a conhecer as pessoas que mantém viva a tradição deste instrumento entre nós. Sim, como você disse, temos o encargo de manter este instrumento VIVO ! Vamos em frente!"
Creio que seja esse um de nossos maiores objetivos, fortalecer a corrente do acordeon diatônico praticado no Brasil.