22 de mai de 2016

Hermeto Pascoal (O Ovo) - TRIO RUMAGÁ - Cordas e Música

3 de mai de 2016

EVANDRO DOS 8 BAIXOS - PRA NÃO MORRER DE TRISTEZA(JOÃO SILVA E KBOCLINHO...

Evandro dos Oito Baixos faleceu hoje, 03 de maio, em Pernambuco. Grande expressão do instrumento, embora não tenha edificado vultuosa carreira fonográfica e radiofônica. A geração de ouro do fole de oito baixos se despede aos poucos. Que o futuro seja mais luminoso com a música produzida neste país.

25 de abr de 2016

Léo Rugero e Galvão do Juazeiro

Domingo, 10 de abril de 2016

Notícias de Leo Rugero, Galvão de Juazeiro do Norte e Sanfona de 8 Baixos

Na madrugada deste domingo recebi notícias do bom amigo professor e sanfoneiro, guardião da cultura de tocar sanfona de 8 baixos. Transcrevo as notícias de Leo Rugero:
"Hoje, fechando com chave de ouro minha passagem por Juazeiro do Norte, estive pessoalmente com Galvão de Juazeiro, cavaleiro sertanejo, ancestralidade da cultura do sertão nordestino personificada.

O que motivou nosso encontro foi nossa devoção mútua por este instrumento, o fole de oito baixos, instrumento matricial na cultura nordestina, que se encontra em processo de extinção na microrregião do Cariri cearense. De acordo com Galvão, ele é o mais jovem remanescente desta tradição sonora, no alto de seus 68 anos.

Galvão de Juazeiro ficou maravilhado com meu livro, "Com Respeito aos Oito Baixos". De acordo com suas palavras, foi o livro que ele esperou ser escrito por uma vida inteira. Maior elogio não poderia ser recebido, vindo deste profundo conhecedor da história oral nordestina.

Nesta tarde de fole e prosa, também fui presenteado pela sabedoria de Galvão de Juazeiro, que conhece em detalhes, nomes de personagens que constituem a história do fole de oito baixos no sertão nordestino. Também é um profundo conhecedor da história do fole, revelando dados que nem mesmo os livros de historiadores europeus como o notório Pierre Monichon, descreveram, pois tratam de vestígios históricos no processo migratório e na colonização nordestina que passaram desapercebido por historiadores e etnógrafos do passado.

Outro ponto de contato que alimentou nossa conversa, foi a maestria do fole de oito baixos paraibano, centro irradiador da afinação "transportada"e da soberba influência da família Calixto como uma dos principais genealogias desta tradição sonora. Sabendo de minha estreita relação de aprendizado e pesquisa com Zé Calixto, o mestre Galvão ficou embevecido ao ouvir minha interpretação de algumas músicas do repertório de Zé Calixto, observando como o mestre foi cuidadoso na transmissão de detalhes de técnica, postura, dedihado e articulação. Se meu repertório não se esgotasse, creio que a audição se prolongaria por horas.Nunca senti tamanho orgulho por ter um dia encontrado Zé Calixto e, através dele, ter conhecido a fundamentação técnica do fole paraibano.

Também conversamos sobre a técnica suprema de Luizinho Calixto, assim como do talento de Bastinho Calixto e João Calixto. Galvão discorreu sobre os tempos de Seu João de Deus Calixto e de tempos que nem mesmo Seu Dideus conheceu, de quando se concebeu a afinação e técnica do estado da Paraíba, admirada por todos.

Tocou seu fole Koch centenário, exemplar raro entre os primeiros foles alemães que alcançaram o solo nordestino. Também se encantou com meu fole Todeschini de 1967 e seus botões de acrílico, outrora confeccionados por Zé Aragão, sob o desenho e especificação de Zé Calixto, no início da década de 1970.

Galvão do Juazeiro mantém um museu no interior do município, que contém, entre outras coisas, uma das maiores coleções de acordeões diatônicos do Brasil e, seguramente, do mundo, totalizando 23 foles em diferentes procedências, épocas e afinações.

Criticou algumas instituições, petrificadas pelo "apadrinhamento" de resquício colonialista, impedindo, muitas vezes,que a cultura seja contada e cantada pela perspectiva nativa e encontre vitalidade para superar as imposições de cunho midiático.

Também revelou seu pendor às questões mais sensíveis da cidadania, em seu trabalho de cuidado com a saúde e o bem estar de animais abandonados no sertão, onde, desde que as motocicletas e os automóveis substituíram o papel de condução e tropa,despedidos de suas funções de serventia, foram soltos, muitas vezes velhos e enfraquecidos, pelas estradas de terra do sertão.

Enfim, Galvão do Juazeiro é uma daquelas pessoas iluminadas que clareiam com sua luz por onde passa, trazendo-nos conforto ao coração e alimentando nossa alma com sua sabedoria e conhecimento.

Voltando ao Rio de Janeiro, eis que senti meu velho fole de oito baixos ressignificado, e a história de meu aprendizado e pesquisa, faz-se novamente refortalecida com a benção deste encontro.

Até logo Galvão do Juazeiro, que os bons ventos permitam que possamos nos encontrar em breve!!! Os oito baixos agradeçem".

Blog Ney Vital - Rádio Nas Asas da Asa Branca: Notícias de Leo Rugero, Galvão de Juazeiro do Nort...

Blog Ney Vital - Rádio Nas Asas da Asa Branca: Notícias de Leo Rugero, Galvão de Juazeiro do Nort...: Na madrugada deste domingo recebi notícias do bom amigo professor e sanfoneiro, guardião da cultura de tocar sanfona de 8 baixos. Transcr...

2 de mar de 2016

XOTE TEIMOSO -=- Pedro Sousa -- Castigando o 8 Baixos

Publicado em 18 de mai de 2014

Compacto -- Pedro Sousa -- Castigando o 8 Baixos

Colaboração do Francisco Alves de Almeida "DIDI"

"Este compacto gravado em 1966 pelo Pedro Sousa é muito raro até pelo numero de cópias gravadas, gravadora também desconhecida, destaque para as faixas 'Saudades de Várzea Alegre' e 'Xote teimoso', para quem gosta de fole de oito baixos aqui está uma raridade.

Pedro Sousa foi um grande sanfoneiro, começou nos oito baixos depois passou para os oitenta e tocou até 120 baixos. Varzealegrense divulgou nossa cidade por vários Estados até o sul do País. Fazia de sua casa um "rancho' para artistas e sanfoneiros, e por lá passaram grandes nomes da nossa música regional, tais como Zé Calixto, Luizinho Calixto, Messias Holanda, Edson Duarte, e muitos outros, tocou com dois dos maiores artistas da sua época, o Trio Nordestino e Marinês.

Não teve a felicidade de gravar em grandes gravadoras, mas deixou seu recado em três oportunidades, este compacto no ano de 1966, um vinil em 1985 já constante nos arquivos do forró em vinil e um CD em 1998 que enviarei em breve.

Pedro Sousa era tudo isso e muito mais!!! Em outras oportunidades falarei muito mais deste amigo, compadre e artista forrozeiro nato. Nos deixou em 17.09.2000. Mas a sua falta ainda é sentida entre todos aqueles que tiveram a oportunidade de lhe conhecer e conviver um pouco com ele e sua musicalidade."

Compacto -- Pedro Souza -- Castigando o 8 Baixos
1966 -- Arte

01 Castigando o 8 Baixos (Pedro Souza)
02 Arrodeando a fogueira (Pedro Souza)
03 Xote teimoso (Pedro Souza)
04 Saudades de Várzea Alegre (Pedro Souza)

Para baixar esse disco, clique aqui:
http://www.forroemvinil.com/compacto-...

toninho dos 8 baixos 7 - Calango do Toninho

29 de fev de 2016

Egídio Raposo

EGÍDIO RAPOSO

13th março, 2012 | Postado por admin
Homenagear Egídio Raposo. Fazer um tributo ao mestre sanfoneiro. É uma missão gratificante, misturando-se alegria e honra. Homenagem justa àquele que teve uma notória trajetória de empenho e de luta pela valorização e divulgação do forró.
(Egídio Raposo) Crédito: acervo da família
Egídio Manoel do Nascimento nasceu no dia 08 de outubro de 1924, no Povoado Macacos, município de São Raimundo Nonato-PI.  O pai Manoel Raposo era sanfoneiro, nos tempos da pé-de-bode (sanfona de 8 baixos). O menino Egídio aprendeu com o pai. Aprendeu de ouvido, como se diz na linguagem musical. O apelido “Raposo” veio de um costume da família de sanfoneiros, de sempre nas festas pedir junto ao cachê uma galinha para comer.
Vamos situar Egídio Raposo nas circunstâncias em que viveu. Era a época da família patriarcal: composta de homens autoritários, mulheres submissas e crianças escabreadas (eram educadas através do medo). Ele foi, sem sombra de dúvidas, o primeiro músico (notadamente sanfoneiro) da região a ter nível de excelência musical. Em especial, a entender de partitura. E tinha pouco estudo. Um autodidata notável. Era o tempo do amadorismo ou empirismo. Compreendendo esse momento da História, bem escreveu Josélia Ribeiro dos Passos:
  - Para fazer música, a única coisa que o indivíduo precisa é estar vivo. Não precisa saber ler, nem adquirir materiais e sequer sair de casa.
Casou-se em 1944 com Dona Teresinha Jesus do Nascimento. Tiveram seis filhos: ZildenitaJoão Bosco (faleceu em 1970), HélioEdsonMaria do Socorro e Nilva. Ele era um homem de poucas palavras. Olhar penetrante. Nas horas vagas adorava jogar baralho com os amigos. Simples cidadão corajoso e bom. Tudo que fez foi por livre exercício de cidadania e espontânea vontade humana.
Neste ano de 2012, memorável e histórico, pelo centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, rei do Baião, e pelo centenário de São Raimundo Nonato-PI, faz-se necessário uma visitação à história do mestre sanfoneiro Egídio Raposo. Foi essencialmente dessa iniciativa histórica, com acréscimo prioritário do fator musical como instrumento de justiça social, que se originou o Baião. Compromisso estético e senso psicológico do povo brasileiro, excluído socialmente. Como fundamento de vida sofrida e possibilidade de prosperidade. A música como condição de ser alguém na vida e cantar sua aldeia. Descentralizar o Brasil do eixo Rio-São Paulo, referência aos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os mais desenvolvidos e mais beneficiados pelo processo de industrialização e desenvolvimento nacional.
Nosso grito aqui é para mostrar que o mestre sanfoneiro possui uma grande história. A grande lição dele foi ser humilde. Desse modo, viveu a grandeza da vida. Saiu de uma origem humilde. Ninguém se constrói sozinho. É uma regra básica da vida. E uma grande verdade. O povo do Sertão é solidário. Egídio Raposo, como sertanejo que foi, compreendia que a construção do indivíduo vem da carga genética, do meio social, e do ambiente educacional. Tudo isso se somando ao caráter pessoal, algo bem nosso.
A primeira coisa que percebemos na sua história, é que desde jovem deu um choque de lucidez na sua vida. Passou a encarar a realidade como ela se encontrava. E o melhor, lutou para mudá-la para melhor. Felizmente, ele não aprendeu a ser submisso. Ou então desaprendeu. O fato, é que ainda jovem provocou a desobediência civil, saindo daquela ordem social rotineira ou daquele destino sertanejo já traçado, sem perspectivas para os jovens da região. Criou asas e voou em busca de seus ideais. Rompeu o cárcere do medo e correu riscos. Sofreu emoções. Mas jamais esperou por milagres. A experiência dele nos deixa a certeza de que o pior equívoco é o indivíduo não viver sua própria natureza. O mestre sanfoneiro não cometeu tal equívoco. Gozou plenamente a alegria da vida. Ensinou-nos a sermos nós mesmos.
Jamais aceitou ser dominado por qualquer ordem social que afetasse seu bem-estar, seu prazer na vida; que destruísse aquilo que amava. Sempre reagia. Eis a grande questão! Foi sempre ator da sua própria história. Decidido sempre. E convicto. Nele ninguém viu sinal de frustração. Demonstrava ser realizado espiritualmente. Muitos vivem simplesmente porque estão vivos. Mas uma vida ociosa, sem objetivos e sonhos. Metas e ideais. A vida humana é belíssima, mas brevíssima. Cada ser humano vive num momento da História, num pequeno parêntese do tempo. Tão breve que de um instante para outro deixa de ser uma pessoa, para se tornar uma página da História.
O que fez Egídio Raposo? Construiu amigos (muitos amigos). Dos mais simples aos mestres Luiz Gonzaga e Sivuca. Correspondia da mesma forma, não tinha tratamento diferenciado. Enfrentou obstáculos. Sofreu derrotas. Bateu na porta da vida, e provou que não tinha medo de vivê-la. Percorreu pelo caminho da singeleza, assumindo ser um cidadão desprovido de orgulho. Era um apaixonado pela vida. Da forma mais simples possível. Nunca teve medo de falhar, nem tampouco se preocupava em ter sua imagem social diminuída por ser popular e andar no meio do povo; por ser simples na convivência social. Vivia sua vida, e pronto!
A cultura nada mais é do que o modo de viver de uma sociedade. O menino Egídio cresceu absorvendo a cultura simbólica que se manifestava ao seu redor. A partir daí, criou muita coisa também. Dedicado por completo. Obras e ações de grande relevância musical. E cultural. Fazendo uma viagem pelo tempo, visitando nossa história, iremos encontrar as árvores da música da nossa região. São muitos pioneiros. Desde os tempos de Júlio Dias, na década de 10, passando por Chico Cibely (pai de Tita Veiga), e chegando à geração de Egídio Raposo. Eis os amigos e parceiros do mestre sanfoneiro: João Santos (“Caraolho”)Antônio Alves do Nacimento (“Cupim”) e Hamilton Barreto. Existem muitos outros, quis aqui pegar as referências. Essa garotada foi revolucionária. Foi um movimento musical nos anos 40 e 50. Uma importante campanha.
Creio ter sido esses jovens (pelas pesquisas que tenho), naquele momento da nossa história, quem primeiro construiu a possibilidade de contemplação da cultura local. Tentaram (e conseguiram) reformar a então capenga e importada, em sua quase totalidade, “cultura dos outros”. Passaram a conhecer, compreender, valorizar e promover as tradições, o folclore e a realidade da vida cultural da nossa terra. Foi o começo de uma revolução. Muita coisa se seguiu a isso.
A primeira safra de músicos revolucionários da região, em que se tem notícia, foi essa. Aprendidas as lições, a mensagem e o exemplo foram gradativamente sendo consolidados e seguidos. Tivemos o segundo momento, com o protagonismo da geração de Tita Veiga, filho do mestre Chico Cibely, essa figura emblemática da musicalidade da região, que até hoje é um batalhador. A grande bandeira na atualidade. Deixamos, portanto, de rezar a cartilha cultural dos outros lugares. Descobrimos nossa cultura e estruturamo-la cada vez mais, dentro do nosso imenso espaço de tradições e riquezas culturais.
Isso demonstra que a situação da música popular na região não foi diferente da realidade de outras regiões. A partir de músicos como Egídio Raposo nossa música ganhou dignidade, respeito e notoriedade. Foi um dos pilares desse movimento sufragista. Época em que se inicia esse processo musical emancipacionista. Logo, algumas conquistas foram alcançadas. O mestre sanfoneiro incentivou e produziu grandes músicos e intérpretes. Muitos piauienses, e outros de Estados vizinhos.
Egídio Raposo foi para o Estado de São Paulo, nos anos 40. O grande sonho era comprar uma sanfona boa. O sonho foi realizado. Nesta oportunidade conheceu Luiz Gonzaga, de quem se tornou amigo. Retornou para sua terra. Nos anos 50 foi para Salvador-BA, estudar música. Ingressou na renomada, na época, hoje extinta, “Academia de Acordeom Regina”. Concluiu os estudos em 1955. Aluno de destaque. Foi convidado para ser professor. Convite feito, convite aceito. Recebia sempre a visita do amigo sanfoneiro Sivuca. Toda vez que estava no Brasil (naquela época morava no exterior), o renomado sanfoneiro paraibano ia a Salvador-BA só visitar o sanfoneiro piauiense. Trocavam experiências. Dele as palavras:
- Mestre Egídio é exemplo de humildade e de superação na vida. E excelência na música.
O mestre sanfoneiro fez sucesso na Rádio Excelsius da Bahia, Rádio Sociedade da Bahia, Rádio Globo, dentre outras. Outro fato importante, é que foi ele o principal incentivador do Trio Nordestino. Formado em 1957 por LindúCobrinhaCoroné. Trio baiano, o original. Existiram outros dois, que duraram apenas dois anos. Não tinham a patente para usar o nome, e deixaram de existir. Foram formados no Estado de São Paulo.
Egídio Raposo teve muitos alunos. Um aluno seu: o cantor, músico e compositor Gilberto Gil. Isso mesmo: Gilberto Gil. O mestre sanfoneiro foi seu professor. Há alguns anos o cantor baiano esteve em Teresina-PI, e mandou buscar de avião seu mestre em São Raimundo Nonato-PI. Publicamente apresentou-o como seu primeiro professor de música.
(Egídio Raposo e Gilberto Gil) Crédito: acervo da família

Esteve por uma temporada em Goiânia-GO. Depois foi para Juazeiro do Norte-CE. Fez muito sucesso na região. Sua presença era certa na Rádio Iracema. Nessa época, reecontrou-se com Luiz Gonzaga. O rei do Baião o convidou para ser professor de sanfona em Exu-PE, sua terra natal. Mestre Egídio não aceitou o convite, disse ter outros projetos que impossibilitavam essa causa.
Certa vez escrevi, no livro “Gigantes do Forró: perfis biográficos”, um de meus livros, que:
- O ensino da música, notadamente às crianças, é uma disseminação de cultura e cidadania. A música em si é um instrumento de construção, manutenção e fortalecimento dessa proposta social. A reboque vem a alegria, entretenimento e o desenvolvimento. Preenche também um vazio de fé e esperança nas pessoas. Mexe com nossas emoções, consolida nossos sentimentos e fortalece nossas amizades e paixões. Sou um defensor da música como um instrumento, e uma via, para a cidadania e para o desenvolvimento. É uma arma tanto defensiva quanto ofensiva nas lutas espirituais que sofremos, entre o caminho do mal e o caminho do bem. Ela salva as pessoas do caminho do mal. É uma porta para o caminho do bem.
O fortalecimento de uma determinada identidade se dá, primeiro, pela preservação do seu patrimônio cultural. Seja de forma física (estruturas físicas, monumentos etc.), ou através da memória coletiva. Especifiquemos aqui o quesito forró. O primeiro caso ainda é falho na nossa região. Pouquíssimos monumentos fazem tal preservação da memória forrozeira. Não há sequer um monumento que represente a grandeza da tradição centenária do forró, na nossa região. Em Dom Inocêncio-PI, minha terra natal, a “Terra dos Sanfoneiros”, temos uma luta pesada nesse sentido; construir o “Parque do Forró Sanfoneiro Gilberto Dias”. Essa missão está em andamento, já providenciamos muita coisa nesse sentido. Mas de maneira geral, estamos em dívida com nossa história.
Existe, de forma heróica, um esforço grandioso para preservação da identidade e memória do forró. Destaco a luta dos nossos músicos guerreiros. A história de cada um é relevante. E somando-se forças, temos uma história de peso, no cenário regional (região Nordeste) e no contexto nacional. Cito basicamente três sanfoneiros:
Luís do Paulo, de Dom Inocêncio-PI, considerado um dos maiores sanfoneiros de pé-de-bode (8 baixos) do Brasil. Tocou com Luiz Gonzaga nos anos 40, de quem foi amigo;
Egídio Raposo, professor de sanfona, tendo aluno do nível de Gilberto Gil; e
Gilberto Dias, de Dom Inocêncio-PI, sanfoneiro danado de bom, expressivo e respeitado na nação forrozeira.
(Luís do Paulo, anos 40) Fonte: Adão de Sousa
Nessa empreitada de preservar a tradição forrozeira, existem ainda muitos eventos nos municípios. Festivais de sanfoneiros, onde destaco aqui dois:
- O tradicional Festival de Sanfoneiros de Dom Inocêncio-PI, onde centenas de sanfoneiros se reúnem; e
- O grandioso Festival de Sanfoneiros de São Raimundo Nonato-PI, idealizado no ano passado, capitaneado pelo professor Cineas Santos, figura lendária da nossa cultura, e promovido pela prefeitura municipal. Na gestão do Padre Herculano. Este evento reúne os sanfoneiros da região, surgindo uma grande confraternização e uma amostra do gigantismo do forró regional.
Quero destacar aqui, uma iniciativa importante: O “Toca do Forró”, programa de rádio, na grandona Rádio Serra da Capivara AM (grande difusora de música), idealizado pelo radialista Nilton Negreiros, embaixador dos músicos, e apadrinhado pelo sanfoneiro Gilberto Dias. Sua existência tem feito um trabalho relevante, no sentido de valorizar e divulgar os artistas da região. O encaminhamento é dado. Além desse, outros programas de rádio contemplam a simbologia sertaneja. Destaco aqui, o “Se liga, Sertão”, apresentado também por Nilton Negreiros, na Rádio Serra da Capivara AM. Existe há mais de 20 anos. O programa “Forronejo”, apresentado por Edvaldo Soares, e o programa“Voz Caipira”, apresentado por Bartolomeu Neto, ambos na Rádio Cultura FM. Dão sua contribuição.
Os monumentos que existem são literários. Escritores e historiadores que se orgulham do regionalismo, e contam a história cultural da nossa terra. Também é importante considerar-se que algumas pessoas, grupos ou entidades, foram importantes (e são) nesse processo identitário. Difundindo essa arte secular. De maneira, que essa tradição manteve-se viva na memória e nos costumes do povo. Isso é atemporal.
Destaco aqui, a contribuição musical de Tita Veiga. Um persistente da memória musical da região. Preservando-a por gerações. O mestre tem sido incansável nessa missão. Lutador histórico. Sempre intervém, quando sua interferência se faz necessária. Acho isso positivo. E é sua principal marca. Jamais foge ao debate. Não aceita o papel de subalterno.
Na atualidade, contamos com uma ferramenta importante: a internet. Os portais da região democratizaram a informação, romperam os limites da comunicação, e instituíram a chamada globalização.
Egídio Raposo cantou sua aldeia. Mesmo viajando muito para fora, viajou de verdade foi para dentro. Em vez de valorizar as coisas dos outros, valorizou as nossas coisas. Internalizou a simbologia do Sertão. Não “arredou o pé” dessa causa. Seu compromisso com a música, e a cultura de maneira geral, o fez entregar-se de corpo e alma. Nunca trocou sua responsabilidade social para com sua terra, pela fama ou retorno financeiro agradável. Isso era uma característica humana dele. Preferiu ficar aqui.
Ficando em sua terra, deixou um legado. Oportunizou um grande aprendizado de música, notadamente de sanfona. Talvez se tivesse sido famoso nacionalmente, não teria dado uma contribuição concreta para a musicalidade da região, como deu morando em São Raimundo Nonato-PI. Para mim, isso vale muito mais do que a fama que não quis. O mestre nos ensinou essencialmente a ter interesse pela nossa própria história. Essa sua atitude é o exemplo mais importante da sua história.
Ótima iniciativa. Josélia Ribeiro dos Passos apresenta em 2003 uma monografia relatando a biografia de Egídio Manoel do Nascimento, junto à Universidade Estadual do Piauí-UESPI, para a obtenção do Grau de Licenciatura Plena em História. Confira dois trechos (um sobre os tempos da geração do mestre sanfoneiro, e outro sobre o pouco culto à História):
- Um homem simples que conseguiu marcar a cultura musical de São Raimundo Nonato (Piauí). Nos anos 50 verificamos que aqui a cultura era voltada principalmente para os estudos nos internatos da Ordem Mercedária.
- A sociedade local, e em geral, tende a perder suas tradições com o passar dos tempos, principalmente quando não se tem um projeto em que essas tradições possam ser resgatadas e reconhecidas pelas gerações mais novas, pela vanguarda formadora de opinião.
Já um senhor, virou taxista. Aposentado, passou a desfrutar mais da relação familiar e dos amigos. Sua vitalidade manteve-se intacta, enquanto vida teve. Claro, com alguns abalos. Por exemplo, nos anos 60 o forró sofreu um processo de decadência. Na região e nacionalmente. Refiro-me ao forró pé de serra, composto pelos instrumentos sanfona, triângulo e zabumba. Surgiram os conjuntos musicais. Eram os tempos dos bailes nos clubes. O próprio Luiz Gonzaga chegou a cogitar a possibilidade de parar sua carreira musical. Dominguinhos, sanfoneiro, que andava com ele, confirma esse fato. Foi uma época difícil para o forró.
Egídio Raposo nunca se incomodou ou deixou-se abater quando alguns críticos musicais do eixo Rio-São Paulo diziam que suas músicas (críticos não sabem fazer nada, a não ser criticar a história dos outros), eram regionais. Isso aconteceu também com Luiz GonzagaMarinêsJackson do PandeiroGenival LacerdaTrio Nordestino, dentre outros. O mestre sanfoneiro tinha consciência da missão de um artista ou homem público, que é conviver com muitas intemperanças; conviver, até, com o contraditório. Ser uma bandeira como ele foi mais ainda, pois exige postura de líder. Isso porque, passa a ser defensor de costumes e expressões impregnadas, por sinal, nele próprio.
O mestre sanfoneiro tinha espírito empreendedor. Sempre acreditou na prosperidade da nossa terra. Jamais se deixou aniquilar pela inarredável falta de perspectiva que foi submetida, durante décadas, nossa região. Buscou caminhos e alternativas de superação. Fez da música sua religião. Para ele a música foi um sacerdócio. Era de ensinar com o exemplo. Falava pouco. Sempre respeitador e elegante. Elogiava muito e pouco criticava, agradecia muito e pouco reclamava, vivia suavemente e pouco cobrava dos outros. Vivia na dele, como se diz no cotidiano.
Egídio Raposo nunca teve solidão. Tinha uma esposa companheira, filhos amáveis e cuidadosos com ele, amigos verdadeiros (e muitos amigos), e o carinho do povo. Ele tinha a atenção e o respeito de todos. Filosofando aqui, ele viajou pelas avenidas da vida. E o mais fantástico: nas suas experiências encontrou-se consigo mesmo. Muitos nunca se encontram com seu ser. Ele viveu plenamente o seu ser. Sem ser escravo de ideias fixas. Tinha encanto pela vida.
Uma passagem de sua história. Em 1970, com a morte do seu filho João Bosco, parou de tocar sanfona. Pelo menos publicamente. Nosso esforço é para que o mestre sanfoneiro não seja relegado ao rol dos anônimos e esquecidos pela sociedade atual. Respeitar sua história e tomá-la como referência é uma atitude necessária e correta.
Egídio Raposo faleceu no dia 19 de abril de 2002. De câncer. Como se diz aqui pelas nossas bandas do Sertão: “Ele foi muito nós, e somos muito ele”. Sua personalidade enriquece a história do Piauí, da nossa região. Viveu em forma extremamente simples, mas ao mesmo tempo fascinante e encantadora. Sua memória contempla nossa esperança. Palavras de Tita Veiga, sobre ele:
- Sem Egídio Raposo, São Raimundo Nonato-PI é uma festa com forró pé de serra sem sanfona. Musicalmente, perdemos a grande alma. O mestre.
Não nascem mais, na sociedade de hoje (ou melhor, não se formam) homens da grandeza dele. Jogar luz à sua história é fazer brilhar a nossa própria história. Será sempre apreciado por suas qualidades de mente e de coração. Somos matéria e espírito. Dessa forma, a morte não é o fim. Apenas a ausência da matéria. Espiritualmente, ele vive em cada um de nós. É imortal. Está por toda parte. Está nas apresentações musicais e culturais, nas salas de reboco, nos concertos musicais, na nossa memória, no dia a dia de nossas vidas. Está, principalmente, na nossa “veia”, por onde passa o “sangue” do forró.
Ficou sua história. Seu nome. Seu exemplo de vida. Zeca Damasceno, escritor e historiador autodidata, meu tio-avô, disse certa vez palavras bonitas e importantes sobre Egídio Raposo:
- Impossível esquecê-lo. Egídio Raposo: o professor de sanfona. O líder musical que descobriu o valor cultural da nossa terra. E por ela construiu uma mensagem de valorização. Derrubou ainda a mensagem idiota de uma cultura alienada às imposições de outras regiões ou de uma classe alta elitista. Sob sua influência valorizou-se a cultura popular da região, os costumes do povo humilde. Desbravaram-se as nossas tradições. Reformulou-se a temática de nossa música. Valorizaram-se as fontes da nossa sabedoria popular.
O mestre sanfoneiro será sempre lembrado. Isso porque, grande parte de nossa história musical se confunde com sua história. Fez parte de uma geração que se agigantou diante de uma realidade social cruel. Sua história é resultado de uma imensa luta, de infinitas ações, de inúmeras realizações, do seu heróico trabalho. É a força de tudo isso. Pela sua história e pela pessoa que foi, merece o nosso respeito. Um homem destemido, de inteira ação. Honrou-nos com sua existência. Seu nome está inscrito no panteão da imortalidade.
Para os inumeráveis conterrâneos, a história de Egídio Raposo é orgulho regional e patrimônio cultural. Aqui fica consignada a nossa homenagem ao mestre sanfoneiro, e a alegria incontida de ter podido fazê-la.
_
Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Autor de 15 livros publicados. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Fundador e proprietário da Produtora Sertão.

22 de fev de 2016

Jornal Forró em Foco

Olá pessoal, segue o jornal Forró em Foco, que contém alguns breves textos sobre questões relacionadas ao forró, inclusive, um texto que escrevi sobre a realização do documentário "Com Respeito aos Oito Baixos" 
http://www.forroemvinil.com/jornal-forro-em-foco-marco-2015/

Jornal Forró em Foco – Março 2015

Jornal Forró em Foco - frente - mar2015
Jornal Forró em Foco - verso - mar2015
Acompanhe o Jornal Forró em Foco:
http://jornalforroemfoco.blogspot.com.br/

21 de fev de 2016

Homenagem a Moisés Mondadori, o Cavaleiro Moisé

NOTÍCIAS DA CIDADE


24-10-2015
FESTIVAL DO RISOTO VAI HOMENAGEAR MOISÉS MONDADORI

   O Festival do Rizoto vai acontecer no lançamento oficial da Festipê 2016, no início de abril do próximo ano, e vai prestar uma homenagem a Moisés Mondadori, importante acordeonista da história do folclore gaúcho. As entidades estão se organizando e vão preparar o cardápio pensando na cultura culinária dos que povoaram nossa comunidade, entre eles o Imigrante, o africano, e o índio, com ingredientes tradicionais e os orgânicos.

QUEM FOI MOISÉS MONDADORI
Paixão Côrtes foi historiador e idealizador da semana farroupilha, e pesquisou Moisés Mondadori.

Que diz: "Mas tão importante quanto a ideia da chama crioula, ou a da criação do CTG 35, o movimento foi relevante como impulsionador das pesquisas que foram empreendidas rumo ao Interior em busca das raízes e do folclore gaúcho. Paixão encontrou em Ipê (hoje município, mas que antes pertencia a Vacaria) o velho gaiteiro Moisés Mondadori, o mais importante da “geração gramophone”, que foi o primeiro a gravar a música Boi Barroso num disco prensado pela casa A Elétrica em 1913."

No livro A sanfona de oito baixos na música instrumental brasileira - Por Leonardo Rugero Peres (Leo Rugero), encontra-se registrado:

A música instrumental da gaita-ponto:
"No sul do Brasil, especialmente no Rio Grande, a gaita-ponto está indissociavelmente relacionada à interpretação de temas musicais que acompanham as danças tradicionais gaúchas. Através de selos musicais regionais como a Casa “A elétrica”, a música da gaita – ponto começa a ser registrada ainda no segundo decenio do século XX.
   É provavel que a gravação original de Boi barroso, em 1914, por Moisés Mondadori, seja o “marco zero” da história oficial da gaita-ponto brasileira. Também conhecido por Maestro Cavalheiro Moisé Mondadori, foi indubitavelmente um percursor na discografia da gaita-ponto de 8 baixos à nível nacional, tendo regravado esta música em 1974 à convite de Marcus Pereira para a coleção “Musica Popular do Sul”."

14 de fev de 2016

Chorinho de Landinho

SONS DE CANUDOS - CIRCULAÇÃO - LANDINHO PÉ DE BODE

Landinho Pé de Bode e Banda

SEU ELIAS DANIEL tocador de fole dos Pontões de Pombal

Enviado em 29 de out de 2011

SEU ELIAS DANIEL, GRANDE PERCA NO FOLCLORE POMBALENSE. Seu Elias Daniel, homem pacato, doce e sereno, sinônimo da força negra revigorada na energia solar do nosso sertão abrasador. Quando puxava o seu fole de oito baixos conduzia com maestria "Os negros dos pontões" que fazem anualmente o translado do rosário numa bonita procissão e que enchem de lágrimas os olhos de quem assiste aquele espetáculo popular vivido a céus abertos, de passos lentos, cabeçinha inclinada para o lado com o peso do tempo sobre as costas caminha em noites calmas pela Getulio Vargas tendo como fundo musical as novenas da matriz do Bonsucesso. Já de bengala na mão e sobre a cabeça o seu chapéu de massa era um transeunte quase que invisível aos olhos desta nova geração mais que deixa um legado cultural riquíssimo para seus amigos, filhos e porque não dizer todos aqueles que queiram beber da sua fonte inesgotável de sabedoria popular. Acordamos mais tristes é verdade porque o pássaro que enfeitava o bando colorido que pousava no largo da igreja do rosário agora voa sozinho, seu ultimo vôo abrindo as asas para um novo céu com a certeza que cumpriu a sua missão nesta penosa caminhada terrena. Voa seu Elias Daniel, voa embalado nas valsinhas que o senhor tanto tocou, voa conduzido por milhares de anjos que neste momento devem está fazendo o último túnel de varas coloridas e maracás tilintando para festejar a sua chegada. Não foi preciso galgar os degraus do capitalismo para demonstrar riquezas, pois a sua maior riqueza era a humildade, a serenidade e a religiosidade que se fazia alicerce para a sua estadia no meio de nós. Era um Daniel, era um ser iluminado, era um artista rústico que teve o privilégio de subir nos maiores palcos deste estado e porque não dizer deste país, e o que mais nos impressiona era a "primazia" mais que acertada no título do trabalho do cantor e compositor" Luizinho Barbosa" ao denominar este seguimento musical de raízes. Seu Elias era inocente como uma criança, não havia malicia em seu falar nem a ganância fruto da ignorância e perdição dos homens do nosso tempo, pois ao término de cada apresentação sentava-se na espera daqueles que o conduziam sem dizer se quer uma só palavra. Quantas lembranças me vem a mente neste instante, das nossas viagens para a capital, ao BNB Cultural de Sousa PB, as inesquecíveis FENART e os ensaios no CENTRO LIVRE DE ARTE POPULAR --POMBAL PB. Conheci um Elias pai, amigo, mestre, sereno que transmitia-nos a paz apenas com um simples toque de olhar, um Elias responsável que mesmo já tendo a saúde tão debilitada nunca se negou a empunhar o seu fole para dar seqüência a coreografia dos negros dos pontões numa farra quase que tribal. Voa Mestre Elias Daniel voa e prepara-nos uma valsinha para nos recepcionar na última viagem que faremos para lhe encontrar.

AUTOR: *Zé Ronaldo ( Professor e Artista Popular ).

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13 de fev de 2016

Abdias - Oito baixos pra frente





Para não deixarmos passar em branco a data de aniversário de Dominguinhos, que estaria completando 75 anos no dia 12 de fevereiro, que tal este"Oito Baixos pra frente", parceria de Dominguinhos e Anastácia, na interpretação do mestre Abdias dos Oito Baixos, em 1971

10 de fev de 2016

MANOEL DE ELIAS - NOVELA GABRIELA 1975




Publicado em 29 de dez de 2015 no youtube

Video onde aparece Manoel de Elias na novela "Gabriela" de 1975.
Cantor. Compositor. Acordeonista. Irmão do também compositor e sanfoneiro Zé de Elias. Pai de Chiquinha do Acordeom. Autodidata, incentivado pelo pai, que era músico, começou a aprender sanfona de 8 baixos aos 5 anos de idade. Ainda jovem, mudou-se com a família para Santa Cruz (RN), onde exerceu a profissão de afinador de sanfonas. Faleceu aos 95 anos de idade, no município de Belford Roxo (RJ), em decorrência de um câncer de próstata. Na época, era considerado o mais velho dos sanfoneiros de 8 baixos.

9 de fev de 2016

MEU CANARINHO - MINHA BEIJA FLOR

'Não vai cair, vai continuar', diz Heleno dos 8 Baixos sobre legado da sanfona

'Não vai cair, vai continuar', diz Heleno dos 8 Baixos sobre legado da sanfona

Sanfoneiro é um dos homenageados do São João de Caruaru, Agreste de PE.
Ele conta a história e as dificuldades que passou até alcançar o sucesso.

Thays EstarqueDo G1 Caruaru
Heleno dos 8 Baixos, músico (Foto: Thays Estarque/ G1)Heleno iniciou a carreira em Caruaru, onde construiu uma escola de sanfona (Foto: Thays Estarque/ G1)
O músico Heleno dos 8 Baixos, de 54 anos, é um dos homenageados do São João de Caruaru, Agreste de Pernambuco, ao lado do Mestre Manuel Eudócio e Eduardo Campos. Tendo bagagem que inclui a indicação ao Grammy em 1991, com o disco “Brasil Forró”, ele afirmou em entrevista ao G1 que a celebração é um presente de Deus. "É uma grande coisa para qualquer artista, mas principalmente para mim que sou da terrinha”, completa.
Nascido no Sítio Boqueirão, em Ibirajuba, Heleno teve um começo difícil, conta que a família não tinha condições financeiras e que estudou somente até a 4ª série em um grupo educacional - quando um professor reúne crianças e adolescentes da localidade para ensinar todas juntas, em uma mesma sala de aula montado no próprio sítio. “A única coisa que me arrependo nessa vida e que tenho inveja é de não ter estudado mais. O conhecimento é o bem mais precioso do homem”.
A gente nunca sabe de tudo,
os que dizem que sabem
estão mentindo”
Heleno, músico
Vindo de uma família de ciganos, relata que a música sempre esteve presente na casa. “Minha mãe cantava coco de roda, meu pai tocava vários instrumentos e meu irmão na sanfona. Eu mesmo comecei no berimbau de lata e passando por gaita de boca”. Porém, fez questão de afirmar a real paixão: a sanfona de 8 baixos. “No meio de 50 sanfonas, é ela que faz a diferença”.
Aos 12 anos, Heleno foi apresentado a Manoel Maurício, um sanfoneiro conhecido no meio musical por ter um jeito próprio de tocar. Com ele, morou na cidade de Belo Jardim até os 15 anos e aprendeu a tocar os 8 baixos. “Já com idade, tinha uma mania de só me ensinar à meia-noite”, relembra. Autodidata, o músico não sabe ler partituras, mas o mestre ensinou os dois tipos de afinações: a usada no Rio Grande do Sul e na Europa e a Nordestina. "Mesmo já tendo lançado CDs, não deixei de aprender com Manoel até sua morte. A gente nunca sabe de tudo, os que dizem que sabem estão mentindo”, acredita.
Início em Caruaru
A música só se tornou um meio de vida quando se mudou para Caruaru. “Construí minha primeira casa na Rua Macaparana, Cohab I. Foi onde criei minha família. “Passei muita dificuldade. Tinha um ponto na Rua Matriz que os artistas iam para conseguir shows. Ficava sentado o dia todo esperando que aparecesse algo”.
Na chamada "Capital do Agreste", o conforto ainda estava distante e Heleno diz que chegou a passar fome. Contudo, o carinho pela cidade é tanto que ela foi a escolhida para a construção de uma escolinha, com intuito de perpetuar os ensinamentos que aprendeu. Fica no Bairro Vassoural. “Estou muito orgulhoso dessa semente que estou plantando. Agora, estou aprontando a nova geração”, em referência aos alunos e um em especial David, um jovem de 15 anos com quem vai se apresentar no dia 24 de junho, no São João de Caruaru. “É uma riqueza, um presente saber que a sanfona dos 8 baixos não vai cair, vai continuar”, acredita.
Atualmente, o artista possui seis sanfonas e cada uma recebe o nome de uma pessoa que foi importante durante a caminhada até o sucesso. Com orgulho, mostra a mais recente aquisição, que tem um segredo especial. Heleno afirma que a francesa Serafini é a única no mundo com duas afinações, o sol dó e o sustenido si. “Só existe duas, essa e outra que está na minha casa em São Paulo. Junto com Marque Serafini, criei esse modelo de um sonho que tive”, confidencia.

6 de fev de 2016

Multiciência: Como é bom saber e poder tocar uma sanfona

Publicado originalmente em http://multicienciaonline.blogspot.com.br/2015/06/como-e-bom-saber-e-poder-tocar-uma.html?spref=bl


Como é bom saber e poder tocar uma sanfona


Por Brena Souza
  

Luiz Gonzaga foi o precursor e criador do baião, por isso ganhou o posto de rei. Também agregou o xote, o forró e as marchinhas juninas puxando o fole que aprendeu com o pai Januário. E levou toda essa mistura para e dentro e fora do Brasil. Gonzagão utilizou o instrumento para difundir a cultura nordestina por meio de suas composições, numa época em que esses gêneros não eram tão conhecidos nacionalmente e chegou até a enfrentar o preconceito principalmente no sudeste. Só que sua música e de parceiros vingou com grandes discos e clássicos que fazem parte da história da MPB, a exemplo de Asa Branca e Assum Preto.


Instrumento vira paixão de jovens seguidores, como Renan Mendes.

Hoje, percebe-se que a versatilidade da sanfona ou acordeon traduz os diversos ritmos desde o forró pé-de-serra à música clássica, atraindo variados públicos. No São João, há uma efervescência cultural que multiplica seguidores de Gonzaga puxando o fole por onde passa. Muitos com zabumba e triângulo. Em Juazeiro-BA, o músico Raimundinho do Acordeom lembra com saudade dos tempos em que surgiu aos 17 anos, seu interesse pelo instrumento.

“Passei a infância no sertão, no povoado de Riacho da Massaroca, em Curaçá. Na casa dos meus parentes quase sempre tinha uma sanfona. Aconteciam sempre os bailes que o saudoso Vicente do Riacho fazia e era o cara que quando fazia o forró a noite de São João durava três dias de festa. Então eu nasci nesse terreiro”, conta Raimundinho. 

Dominguinhos
O músico que está no mercado desde os anos 70, falou ainda sobre suas influências do cenário musical nordestino. “O rei Luiz Gonzaga foi o primeiro a fazer sucesso com o, xote, xaxado, as modas juninas. Eu alcancei Luiz Gonzaga como o primeiro, depois veio Marinês, Dominguinhos e os filhotes dele”. 

Engana-se quem pensa que somente toca sanfona aqueleque almeja seguir uma carreira musical. O engenheiro agrônomo Rafael Borges, 28, disse que seu interesse pelo acordeom surgiu quando ainda estava na faculdade. Desde então, se apaixonou pelo instrumento. “Comecei por influência do meu curso, o pessoal gostava muito de forró então fui entrando nesse círculo. Deixei de amar o violão e a bateria e comecei a tentar aprender a sanfona”, explica.

Apaixonado pela cultura nordestina, ele não esconde o prazer ao tocar o instrumento. “A sanfona liga a regionalidade da pessoa à música e ao prazer que você sente quando desenvolve aquilo que gostamos. Gosto tanto de tocar bateria, como de tocar violão, mas me entusiasmo mais com o acordeom”, destacou.

Targino Gondim, músico e idealizador do Festival Internacional da Sanfona
O instrumento ícone da cultura popular nordestina também revela seu viés erudito, quando se torna parte integrante de concertos. Tanto que na segunda edição do “Festival Internacional da Sanfona”, realizado em 2010, as cidades irmãs de Juazeiro-BA e Petrolina-PE, no Vale do São Francisco, receberam o acordeonista italiano Mirco Patarini aplaudido por todo o público ao mostrar seu talento nos acordes clássicos.

A queridinha das festas juninas - O pesquisador e músico, Leonardo Rugero Peres, em seu ensaio “A sanfona de oito-baixos na música instrumental brasileira”, publicado no site Músicos do Brasil, descreve como a queridinha das festas juninas surgiu. A sanfona de oito-baixos originou-se no século XIX na Europa, mas foi se inserindo em vários países e recebendo diferentes nomes, inclusive no Brasil. Em 1829, que o inventor vienense CyrillDemian batizou de “acordeom” o instrumento que mais tarde aperfeiçoado, seria um ícone cultural em vários países e em diferentes ritmos.

Aqui no Brasil ela é gaita-de-ponto, cabeça-de-égua, pé-de-bode, fole de oito-baixos entre outras nomenclaturas, e é incessantemente tocada nas festas juninas do Brasil.

Sanfona ou Acordeom? – Eis a questão que ronda a cabeça de muitos que se interessam por conhecer o instrumento. Leo Rugero responde em seu ensaio, para não deixar dúvidas aos apaixonados pelo instrumento. Sanfona e acordeom são instrumentos diferentes. Segundo Leo, a sanfona de oito-baixos possui como característica marcante, a bissonoridade. Isso significa que abrindo o fole (parte onde estão as pregas do instrumento) um botão corresponde a uma nota, e fechando a outra. Ou seja, o movimento do fole determina a nota. Já no acordeom de teclado, cada tecla produz uma nota independente da abertura do fole.

Para quem gosta do som do acordeom, ouça Luiz Gonzaga e a eterna Respeita os oitos baixos do teu pai